EDITORIAL
Profa. Dra. Marli Wandermurem
Professora da Faculdade Batista Brasileira
Coordenadora do CEPPES e Editora da Reger
Desde o ano de 2004, foi criado o Núcleo de Estudo Interdisciplinar Sobre Gênero e Religião (NEIGER). O Núcleo se compõe de mulheres e homens de diversas tradições religiosas, que vem somar-se a outros grupos, e com vontade firme empreende estudos no campo do saber em Gênero e Religião.
Colocar mulheres como sujeito do discurso teológico é, acima de tudo, ousar criar espaço próprio para reflexão e ação, constitui-se em tarefa arrojada. Mas queremos sim, nós, participantes do NEIGER, gestar um novo discurso sobre a Teologia. É assim que nasce a REGER: do solo fértil da tradição – o velho pai e do filho - e da inovação – das mães e das filhas.
Como o verbo REGER que é nosso nome, estamos regidas pela força criadora. Seremos capazes de vivenciar o mistério, superar a esterilidade improdutiva das mulheres e provocar novas gestações. Para isso, contamos com a força suprema, criadora das coisas vivas, visíveis e belas que nossos olhos contemplam, também, contamos com o amor visível no mais alto símbolo representativo de Deus, na terra, o Cristo, a humanidade liberta, cuja personalidade se mostra em nossas irmãs e irmãos que são animados cada dia na luta para conseguir dimensões superiores de relacionamentos e liberdade humana. Dependemos das motivações da Ruah Santa que transmite a força, o amor, o prazer e a alegria de viver. Assim, Viva a REGER!
É com alegria que entregamos a primeira revista Reger Virtual. Iniciando com a reflexão da professora Marli Wandermurem, que inicia a discussão falando do corpo, não de qualquer corpo, trata-se do corpo feminino. Corpo que foi construído pela rigidez dos valores morais através dos pensamentos culturais religiosos a partir dos mitos primordiais. O estudo faz um passeio pela cultura religiosa, apontando sua construção simbólica e por isso chama atenção para a necessidade de observar os sistemas culturais que constroem “corpos femininos”. O estudo aponta para o fato de que é mediante a construção teológica que nasce a sua não-percepção, assim, o corpo começa a tornar-se culpado e perverso, necessitando de purificação através das técnicas coercivas sobre o físico como forma de controle.
Dando continuidade às reflexões, Virgínia Inácio dos Santos apresenta um assunto de impacto; aborda a situação das mulheres negras. O artigo visibiliza a violência, refletindo criticamente os conceitos ideológicos e religiosos que visam à depreciação da pessoa negra. O estudo vem apontar conceitos ligados à definição do termo negro na sociedade brasileira, levando entender fatos históricos que situa as origens da atual baixa estima que vem caracteriza as pessoas negras.
A contribuição de Maria Cristina Ventura Campusano, foi buscar, na exegese bíblica feminista, aportes para se fazer a leitura de uma narrativa no livro do Êxodo, que é fundante de uma importante tradição do povo de Israel. O texto chama atenção para os relacionamentos do povo de Israel com o Egito. Faz-se uma importante ressalva na questão dos recursos naturais que estão à disposição do “povo eleito” e aponta para a necessidade de pensar nos mecanismos de poder que estão por detrás das decisões que são tomadas sem pensar nas conseqüências que se tem para com os “outros”. Esta é uma contribuição valiosa para uma reflexão da hermenêutica que precisa ir além do texto.
Neste mundo de vivência religiosa, Bianca Daeb’s Seixas de Almeida estuda o jeito de ser mulher na perspectiva cristã batista, na Bahia, especialmente em Salvador. A partir de buscas em jornais, atas e outros documentos do mundo batista, ela reconstrói um retrato da mulher batista nos anos 30-60 e indica como esta formação veio a caracterizar aquilo que vem sendo a mulher batista.
E, por fim, o texto de Leci do Carmo da Luz aborda identidade de mulheres, homens em seus processos de formação nas culturas grega e sambia, fazendo uma comparação entre duas culturas; chama atenção para os processos de iniciação que são pontuados por muitas violências, mas são as violências que, marcando os corpos físicos, conferem valores ao macho.
Somos gratas pelas contrições do ambiente acadêmico, de alunos e alunas, de professores e professoras, de nossa Faculdade e de outras Universidades, desejando que as riquezas de perspectivas abordadas ajudem refletir sobre a temática de Gênero e Religião.
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